O metrossexual morreu. Viva o ‘espornossexual ‘

//O metrossexual morreu. Viva o ‘espornossexual ‘

O metrossexual morreu. Viva o ‘espornossexual ‘

Há 20 anos atrás Mark Simpson inventou o termo metrossexual. Mas agora está aparecendo uma nova versão, mais extrema, mais obcecada com o sexo e com o corpo, explica o autor. 

Este ano o metrossexual está deixando a adolescência e completando 20 anos, um desenvolvimento que provavelmente faria com que ele se olhasse várias vezes no espelho, procurando por rugas. Como as crianças crescem depressa! Parece que foi apenas ontem, mas foi em 1994 que Mark Simpson escreveu sobre o homem metrossexual depois de ter visitado uma exposição chamada “It’s a Man’s World” (É um mundo de homens) organizada pela revista GQ. Nessa altura ele viu o futuro da masculinidade e percebeu que seria um futuro hidratado.

“O homem metrossexual, um homem solteiro com um elevado rendimento disponível, vivendo ou trabalhando na cidade (porque é aí que estão as melhores lojas) é talvez o mercado de consumo mais promissor da década,” previu.

Passaram duas décadas em que a vaidade masculina foi cada vez mais exibida – e de uma forma muito lucrativa – e o metrossexual permanece como a menina dos olhos do consumismo. Num estudo recente a HSBC mostrou como a metrossexualidade se tornou em uma corrente dominante.

Obviamente que isto já não é novidade para qualquer pessoa que tenha olhos para ver como os homens em seu redor se tornaram tão conscientes de sua imagem e como consomem produtos relacionados com beleza e moda. Ou como as revistas de saúde e fitness masculinas com seus peitorais e abdominais reluzentes ultrapassaram durante vários anos as vendas de publicações masculinas. Ou até alguém que tenha ouvido as últimas notícias dizendo que agora os homens do Reino Unido gastam mais em sapatos do que as mulheres.

Do ponto de vista do mundo atual – um mundo perfumado, polido e bem vestido – é difícil acreditar que o metrossexual teve de lutar para ser ouvido no início dos anos 90. Nessa época muitas pessoas estavam em fase de negação sobre o que estava acontecendo aos homens e por que eles estavam demorando tanto tempo no banheiro.

Tal como a homossexualidade era ainda estigmatizada e até parcialmente criminalizada nessa altura, o desejo do homem em ser desejado – a essência da metrossexualidade – também era ignorado por muitos. O narcisismo era visto como algo essencialmente feminino ou Wildeano – e veja o que lhe aconteceu. Os julgamentos de Oscar Wilde, o ultimo dandy em finais do século XIX ajudaram a imprimir uma moralidade vitoriana durante a maior parte do século XX. A vaidade masculina era, na melhor das hipóteses, uma coisa efeminada – e na pior, uma perversão.

O final do século XX, a abolição das últimas leis que descriminavam a homossexualidade masculina e a chegada de uma dominante e presunçosa cultura das celebridades – com sua luta Darwiniana para serem notadas em mundo visual e de produtos de marca – afastou os últimos vestígios da moral vitoriana.

 

E para ilustrar isto, bastam suas palavras: David Beckham, o futebolista inglês vindo da classe trabalhadora que se tornou mais famoso mundialmente por seus penteados vistosos, por sua beleza ousada e por seu desenfreado desejo de ser desejado do que por suas qualidades futebolísticas.

Depois de em 2002 o meio-campista que vestia saris ter sido considerado como o expoente máximo do metrossexual, de repente todo o mundo percebeu. Toda a negação dos anos 90 se tornou em incessantes conversas sobre os metrossexuais e sobre limpeza de pele masculina. Mas as pessoas continuavam sem entender o que realmente estava acontecendo com os homens.

Na verdade, importância da revolução masculina que a metrossexualidade representa tem sido bastante desvalorizada pela cobertura superficial que tem recebido. A metrossexualidade é, em um paradoxo que Wilde teria apreciado, algo não muito profundo. Não é sobre cremes de rosto, bolsas e delineadores masculinos ou chinelos. Não é sobre os homens se tornarem “femininos” ou “gays”.  Trata-se de os homens se tornarem tudo. Para eles mesmos. Tal as mulheres foram encorajadas a fazer durante algum tempo.

Esta compreensão pelos homens dos produtos, procedimentos e prazeres anteriormente limitados às mulheres ou a homens homossexuais é agora algo de normal – mesmo que ainda precisemos ser tranquilizados com a palavra “homem” ou “cara” estampada na embalagem, como uma chupeta fálica – que é tido como certo pelos jovens de hoje, que se tornaram realmente em tudo. Em tanto que até pode ser demasiado para a geração mais velha de metrossexuais.

Com seus corpos meticulosamente bombeados e esculpidos, tatuagens realçando os músculos, piercings, barbas adoráveis e decotes profundos, é bastante óbvio que a segunda geração de metrossexuais não está tão centrada em roupas como a primeira.

Ávida de objetificação, a metrossexualidade de segunda geração é totalmente sensual. Seus próprios corpos (mais do que a roupa e os produtos) se tornaram nos melhores acessórios, moldados na academia e transformados em uma mercadoria sensual – que eles compartilham e comparam em um mercado on-line.

Esta nova onda acentua a componente “sexual” da palavra metrossexualidade. Na verdade, é precisa uma nova expressão para descrever essa nova geração de anúncios publicitários em que Ronaldo e Beckham exibem seus atributos e em que o exporte vai para a cama com a pornografia enquanto o senhor Armani fotografa.

Vamos chamar-lhe os “espornossexuais”.

Mas contrariamente aos antigos anúncios metrossexuais com Beckham, em que seus atributos eram provavelmente aperfeiçoados artificialmente, os espornossexuais de hoje provavelmente já usaram o Photoshop em suas vidas reais. Pense em Daniel Osborne vestindo uma sunga brilhante…

As revistas cultivaram a metrossexualidade desde o início. Depois a cultura das celebridades a colocou em órbita. Mas para a geração atual, as redes sociais, as selfies e a pornografia são os principais vetores de um homem desejando ser desejado. Eles querem ser desejados por seus corpos, não por suas roupas. E certamente que não por suas mentes.

Suspeito que Wilde aprovaria.

Palavras-chave: moda, metrossexual, acessórios, moda masculina

By |2019-03-12T19:49:21-03:00março 12th, 2019|Sem categoria|0 Comments

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